O olhar
MédiaA porta fecha-se. O clique ecoa mais alto do que deveria. Ela olha-te durante alguns segundos sem dizer nada. Não é um olhar educado. É um olhar que mede, que avalia a tua respiração, a forma como te mexes.
Ele senta-se. Não há pressa no movimento. Encosta-se e simplesmente observa. O silêncio que se instala não é desconfortável — é denso, quase físico.
Ela aproxima-se. O primeiro toque é deliberado, lento. A mão no teu peito, os dedos a demorarem-se no tecido. Sentes o calor dela e, ao mesmo tempo, o peso constante do olhar dele. Não ouves a respiração dele. Mas sabes que está ali. Apreciando cada reacção tua.
Ela controla o ritmo. Faz-te esperar. Deixa a respiração mudar antes de avançar. Há momentos em que para e vira a cabeça ligeiramente — e tu percebes que está a trocar um olhar com ele. Um acordo silencioso de que não fazes parte, mas que te coloca no centro.
Quando tudo termina, o silêncio regressa diferente. Mais pesado. Mais cheio. Ela afasta-se devagar. Ele levanta-se. Antes de saírem, há um último olhar — curto, tranquilo, sem necessidade de palavras.